Benito: Resistência até ser ouvido
- Raelison Simplicio
- 8 de fev.
- 7 min de leitura

Quem diria que um empacotador de compras de supermercado um dia se tornaria um símbolo de resistência cultural da América Latina? Com 31 anos de idade, Bad Bunny, ou melhor dizendo, Benito Antonio Martínez Ocasio, tem confrontado o "sonho americano" usando sua paixão: a música. Ele nasceu em Porto Rico, cresceu na comunidade de Vega Baja com seus pais e dois irmãos mais novos. Em uma entrevista para a revista Time, relatou ser muito fã do rapper Vico C, desde quando ganhou um CD dele no Natal, aos 5 anos.

Algo belo na arte de Benito é como ele valoriza as memórias que construiu quando muito novo e compartilha essas vivências que conseguem aquecer o coração de quem as ouve sob o som de batucadas envolvidas por trompetes e violas. Seu último álbum, “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” (2025) foi acolhido imediatamente pelo público, e especialmente para os latinos a obra funciona como um aconchego, pois ela retrata fielmente a experiência de nascer e viver a América Latina na sua mais preciosa simplicidade.

Duas cadeiras monobloco em um quintal com bananeiras. Bad Bunny foi além de cantar sobre sua vida. Ele produziu um manifesto em celebração à Porto Rico, e isso começa desde a estética da capa do disco. Enquanto o governo de Donald Trump caçoa da região como "ilha flutuante de lixo", o cantor externa a autenticidade da sua comunidade, algo que os Estados Unidos jamais poderão arrancar.
A ONU não entende Porto Rico como uma colônia, pois, ainda que não seja um país soberano, é um Estado Livre Associado. Tem constituição, código civil, sistema judiciário e tributário próprio, e os porto-riquenhos votam para governador e representantes legislativos. Porém, Porto Rico não elege o presidente dos EUA, não tem senador, usa o dólar americano como moeda, deve subordinação às leis federais, não tem o mesmo acesso ao mecanismo de proteção à falência e o comércio internacional é controlado pelo Congresso Americano.

Localizada na região insular do Caribe, Porto Rico é uma das ilhas do arquipélago. Seu território é calculado em cerca de 13.790 km², onde apenas 8.870 km² são terra. A distância da ilha até o país que detém sua tutela é de aproximadamente 1.700 km, levando de 2 a 3 horas um voo até os EUA. Sua capital, San Juan, é famosa pelas paisagens paradisíacas. Estima-se que é o lar de 3,2 milhões de pessoas, dos quais 93,66% delas compõem a população urbana. Essas informações foram divulgadas em 2024. Muito se polemiza a economia de Porto Rico devido ao alto índice de pobreza (40%), sendo que a economia da ilha depende dos EUA. O estado sofreu um grande déficit no valor de US$ 123 bilhões de dólares. Mas, como pode a maior dívida pública da história dos EUA ter sido contraída pelo seu maior território ultramarino?
Segundo um artigo de Joffe e Martínez, da Universidade George Mason, o cenário socioeconômico de Porto Rico nada mais é do que o resultado do desgoverno dos americanos. Os EUA tomaram uma série de decisões que arrasaram as estruturas públicas da ilha, fragilizando suas operações fiscais e sobrecarregando a região com dívidas irresolúveis. Dados do instituto de pesquisa CentroPR demonstram que isso levou o estado associado a ser três vezes mais pobre do que os Estados Unidos.
Apesar da realidade exposta, para Trump, seus aliados e apoiadores, a ousadia de marginalizar os porto-riquenhos soa mais divertida do que assumir a irresponsabilidade do Estado americano e como eles conseguiram destruir o bem-estar social de uma região inteira que está sob o seu domínio. Mas os fatos não importam quando a dor agride o povo latino. Afinal, esse é o sofrimento necessário para sustentar a filosofia do "Make America Great Again". Eles batem no peito afirmando serem potência, mas o crescimento do país se deu às custas da força que foi sugada do trabalho, por exemplo, de imigrantes.

Desde a Revolução Industrial Americana (1880-1920), imigrantes contribuíram para a urbanização e a expansão manufatureira. Se não fossem os estrangeiros, a população dos EUA teria crescido apenas 31% até 2015 (em vez de 68%), e projeções indicam que 88% do crescimento futuro viria de imigrantes e descendentes. Os latinos foram fundamentais para a expansão dos EUA no século XIX e XX, preenchendo lacunas nos setores intensivos e em condições precárias por um salário baixíssimo. As principais atividades deles eram na agricultura, construção civil, mineração e ferrovias. Após a Segunda Guerra Mundial, começaram a trabalhar ainda mais em hotéis, restaurantes e a prestar serviços domésticos, de limpeza, cuidados e confecção.
E sabe o que mais enfurece os conservadores? Escancarar os fatos que contam a história. É exatamente isso que Bad Bunny tem feito incansavelmente. Uma apresentação ao vivo dele na TV, participando do programa Saturday Night Live (SNL), foi muito comentada em 2025. O cantor performou a música "NUEVAYoL", single que promove o seu álbum laureado. Ele e seus dançarinos reproduziram a famosa fotografia "Lunch Atop a Skyscraper" (1932). Na foto original, onze trabalhadores almoçavam em cima de uma viga de aço a 260 metros de altura, sem nenhuma proteção, naturalizando o perigo de um trabalho abusivo.
A canção vai além da performance. "NUEVAYoL" é introduzida por uma salsa e mescla o reggaeton e o dembow para reafirmar a identidade vibrante da cultura latina em Nova Iorque, cidade americana que tem forte ligação emocional e histórica com os porto-riquenhos. Esse é um retrato fiel de quando a música desempenha a função de interventora descolonial, fazendo com que a narrativa do opressor acabe desarmada pela resistência cultural (Sathuluri, 2025). Nova Iorque não é puramente americana. São notórias as influências dos imigrantes de Porto Rico pulsando nas veias da megalópole, o cenário da diáspora que moldou uma cultura vibrante. Para David Sathuluri, pesquisador colombiano, Bad Bunny cria a contra narrativa, desafia histórias dominantes e centraliza experiências que foram marginalizadas.
“É engraçado porque é um álbum completamente dedicado a Porto Rico, mas começa em Nova Iorque. (...) Antigamente, quando um porto-riquenho ia para os EUA, eles diziam: ‘Me voy pa’ Nueva York!’ Então, Nova Iorque era quase um código para ‘Eu saí da ilha’. E, ao mesmo tempo, coisas incríveis aconteceram em Nova Iorque quando os latinos, os porto-riquenhos, estavam lá — nos unimos aos cubanos, aos dominicanos, havia música, havia arte.” (Bad Bunny, 2025)

Essa fala do cantor em entrevista para a Rolling Stone evidencia a topofilia conceituada por Yi-Fu Tuan, pois a relação dos caribenhos com Nova Iorque também foi de vivenciar a construção de uma sociedade diversa, unida e empoderada que coleciona memórias fantásticas de suas tradições e modos de vida. Esse amor pelo lugar é o pertencimento. Yu-Fu Tuan publicou em 1974 que
"A topofilia não é a emoção humana mais forte. Quando é irresistível, podemos estar certos de que o lugar ou o meio ambiente é o veículo de acontecimentos emocionalmente fortes ou é percebido como um símbolo". (Yi-Fu Tuan, 1974)
Para a Geografia, a relação do homem com o lugar torna claro o que organizou o espaço da forma que está, o que ajuda a entender os fatores positivos e negativos que circundam determinadas regiões, desde as raízes culturais e memórias afetivas ao sofrimento das tensões sociais. A música de Benito promove uma catarse onde letras e ritmos espelham dilemas reais, e ele conseguiu reunir legitimamente milhões de ouvintes globais que são impactados por uma reflexão sobre a luta da América Latina para ser respeitada, tudo por debaixo de uma camada de entretenimento.
No clipe de "NUEVAYoL", o artista colocou um áudio artificial onde a voz de Trump pede perdão aos latinos. No rádio, ele diz: "Eu cometi um erro. Quero pedir desculpas aos imigrantes na América. Quero dizer nos Estados Unidos. Sei que a América é todo o continente. Quero dizer que este país não é nada sem os imigrantes. Este país não é nada sem mexicanos, dominicanos, porto-riquenhos, colombianos, venezuelanos, cubanos (...)"
O clipe foi lançado em 4 de julho de 2025, intencionalmente na data em que os EUA comemoram o Dia da Independência. Além dessas provocações, Bad Bunny ainda fez referência a um protesto que ocorreu na Estátua da Liberdade em 5 de novembro de 2000, quando o ativista Tito Kayak e outros cinco puseram a bandeira de Porto Rico e Vieques em sua coroa.
Para o orgulho de todos nós da comunidade latina, Bad Bunny em 2026 se tornou o terceiro artista latino da história a ganhar o Grammy na categoria de Álbum do Ano, sendo o primeiro destes a conseguir o feito concorrendo com um álbum que foi produzido 100% em língua espanhola. Nunca antes um disco onde suas letras são somente em espanhol, sem cantar alguma faixa em inglês ou sem mesclar os dois idiomas, tinha conquistado o gramofone nesta categoria, rompendo a barreira linguística e cultural do maior prêmio da indústria fonográfica, que é norte-americano.
Em seu discurso, tudo o que Benito fez foi aproveitar o espaço que lhe foi dado no auge de sua carreira para falar com humildade. Defendeu o seu povo e humanizou a sua comunidade para todos que o assistiam. Protestando contra o ICE enquanto os EUA ameaçam a América Latina, o cantor desafia a quem tenta apagar suas raízes, de cabeça erguida diante de toda a mídia.
"Não somos selvagens. Não somos animais. Não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos." (Bad Bunny, 2026)
O posicionamento político de Benito tem sido cada vez mais reconhecido e amplificado por vozes não latinas. Lady Gaga, por exemplo, se emocionou com a vitória dele, que era seu concorrente. A artista prestou uma rápida, mas sincera entrevista falando sobre a sua reação quando o porto-riquenho foi anunciado como vencedor.
Este foi somente um exemplo de como a música é uma das artes que atuam como uma fonte poderosa de opinião, podendo modelar o caráter da sociedade e, além de entreter, ser um ato político necessário, quando o microfone está em boas mãos.




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