Maria Bethânia & Caetano Veloso ganharam o GRAMMY®, mas por que isso importa?
- Raelison Simplicio
- 3 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
O Grammy Awards é a maior premiação do mercado musical, concedida pela Academia Nacional de Artes e Ciências da Gravação dos Estados Unidos, a The Recording Academy. Ela é composta por diversos profissionais que atuam na indústria fonográfica (artistas, compositores, produtores, músicos, engenheiros de som, entre outros) e é uma organização por pares. Ou seja, quem avalia os indicados da premiação são profissionais do ramo da música, não fãs nem críticos.
Desse modo, o Grammy Awards preza por uma premiação de credibilidade, pois somente pessoas com expertise e carreira consolidada na feroz indústria fonográfica pode dar seu voto para eleger os artistas ou as obras as quais ele julga dignas de levar o gramofone dourado para casa. Além disso, o Grammy não tem como princípio levar em consideração o sucesso de vendas, mas sim valorizar o requinte da qualidade técnica e artística presente na produção de determinada obra, e também a excelência do artista em suas técnicas para produzir música.

Segundo o site da The Recording Academy, atualmente, cerca de 20.000 submissões são feitas para tentar agarrar a oportunidade de concorrerem ao Grammy Awards todos os anos. Depois, o departamento de premiações da academia e os comitês de seleção garantem, sem julgamentos, que as obras e os artistas submetidos estejam inscritos nas categorias cabíveis ao que produzem. Somente após isso ocorre a primeira rodada de votações do Grammy, que ocorre online e é o processo que vai definir quem são, oficialmente, os indicados, e cada votante é orientado a votar somente nas categorias as quais ele tem expertise.
Os votos para indicações são compilados pela Deloitte e Touche LPP, uma empresa de atuação global e especializada em auditorias, consultorias tributos e riscos, conhecida como uma das integrantes do seleto grupo "Big Four", às quatro maiores redes globais de serviços profissionais e auditoria do mundo. Em cada categoria específica da premiação (como categorias de pop, latino, country, R&B, e demais gêneros) há cinco finalistas indicados ao Grammy. Já nas categorias gerais (como álbum do ano, cantor do ano, artista revelação, e semelhantes) são oito indicados, exceto nas categorias de produtor do ano (não clássico) e compositor
Após a definição e o anúncio das indicações, os membros votantes da Academia votam em até dez categorias, distribuídas em três áreas de gênero dentro de cada área, além das seis categorias da área geral, para determinar os vencedores. Os vencedores são anunciados na cerimônia anual do The Grammy Awards, o grande evento pelo qual os artistas, gravadoras, críticos, a mídia em geral e, em especial, os fãs, enlouquecidamente, aguardam todo ano.

Desde a criação do Grammy, em 1959, grande parte das vitórias e indicações está concentrada em artistas anglo-saxônicos. Na busca por amenizar essa situação, o Grammy passou a trazer novas categorias para a premiação, com a justificativa de alcançar a fonografia internacional de modo mais amplo. Foi assim que surgiu a categoria de Melhor Álbum de Música Global, no ano de 1992, quando o prêmio foi entregue pela primeira vez.
Para ser indicado nessa categoria, é preciso que o disco tenha uma sonoridade diferenciada da música pop convencional, geralmente contemplando produções com sonoridades tradicionais, indígenas, folclóricas e não ocidentais. Isso dá a chance de destacar gêneros musicais que estão fora da curva, como o afrobeat, a MPB, o flamenco espanhol, a música indiana e demais expressões musicais advindas de uma diversidade cultural que muitas vezes ocupa pouco espaço na mídia mundo afora.
As categorias específicas para música global não são equivalentes às categorias mais prestigiadas, como Música ou Álbum do Ano. No entanto, têm ajudado a quebrar, aos poucos, as barreiras das culturas dominantes, permitindo que mais territórios musicais sejam descobertos pelo público. E, assim como ocorreu com o Globo de Ouro e com o Oscar, o Brasil ser reconhecido no Grammy propaga o nosso potencial artístico e enaltece a genialidade e a contribuição dos nossos artistas para a nossa cultura.

Com mais de 60 anos de carreira, Caetano Veloso (83) e Maria Bethânia (79), o camaleão e a rainha da MPB, foram laureados com o prêmio de Melhor Álbum de Música Global, na 68ª edição do Grammy Awards em 1º de fevereiro de 2026. A obra em questão é intitulada “Caetano e Bethânia Ao Vivo” (2025), registro de um show que conta a história da Música Popular Brasileira por meio de 33 canções compostas não apenas por Veloso, mas também por Gilberto Gil, Raul Seixas, Erasmo Carlos e outros grandes nomes.
Os filhos de Dona Canô não puderam estar presentes na cerimônia, em Los Angeles. Caetano estava em Salvador e soube primeiro da novidade. Ele telefonou para sua irmã, que estava em Santo Amaro da Purificação para participar das festividades religiosas locais, que ocorrem entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, às quais Bethânia não abre mão. O disco agraciado é parte de um projeto audiovisual, lançado pela Sony Music Brasil em 26 de maio de 2025, que celebra a carreira primorosa desses dois baianos.

O gramofone não poderia chegar em um momento melhor. Neste ano, Bethânia completa 80 anos de idade e segue na ativa. Em 18 de janeiro, a cantora finalizou sua turnê em comemoração aos 60 anos de carreira, que percorreu três importantes capitais: Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Para além disso, Bethânia se tornou a primeira cantora de MPB a ganhar um Grammy, destacando o protagonismo da mulher brasileira na indústria fonográfica em nível mundial e demonstrando um exemplo real de longevidade.
Já para Caetano, concorrer ao Grammy nessa categoria — e vencer — não é novidade. A primeira vez foi em 2000, pelo álbum “Livro” (1997). Na segunda, em 2001, ganhou o prêmio por seu trabalho como produtor do disco “João, voz e violão” (2000), do cantor João Gilberto, que partiu em 2019. No total, venceu em três de suas cinco indicações. Veloso é um dos compositores mais valiosos do Brasil e, mais uma vez, o seu talento foi aplaudido pelo mundo, que nos aplaudiu também. Suas poesias profundas, sua sensibilidade ao compor e a maestria e delicadeza em sua arte são pilares da sonoridade única e marcante que é a brasileira.

Reparou que o Grammy expõe a interação de diferentes sociedades que se conectam em algum momento para apreciar música? Notou o potencial que premiações como essa têm de segregar, unir e globalizar culturas? Percebeu o quanto a indústria fonográfica tem controle sobre a produção e o consumo?
Não se trata somente de um evento em que se ganha um troféu por fazer música. Ele tem potencial para influenciar o que as pessoas ao redor do globo comentam, aplaudem, apreciam e consomem. E, se há um produto que é lucrativo para o Brasil, esse produto é a sua cultura.
Quando os holofotes se voltam para a nossa arte, evoluímos como um todo. Essa é a razão pela qual o Grammy de Bethânia e Caetano importa — e a Geografia também foi o espetáculo da noite.

“O espaço se globaliza, mas não é mundial como um todo senão como metáfora. Todos os lugares são mundiais, mas não há um espaço mundial. Quem se globaliza mesmo são as pessoas e os lugares.” (Milton Santos, 1993)
Com informações do G1 e da The Recording Academy



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